Poema Africano: RETRATO INACABADO
Poema de: Kingston Quembo
Dizem que Van Gogh pintou o céu da dor com estrelas,
mas o azul que me deixaste é mais profundo que o dele.
Dizem que Beethoven compôs na surdez da alma,
e eu aprendi o silêncio no compasso da tua ausência.
Hemingway escreveu sobre guerras e adeus,
mas nenhum tiro matou tanto quanto o teu “até logo”.
Camões perdeu um olho e achou versos no naufrágio,
eu perdi o rumo e ganhei poesia no teu abandono.
Tu foste o meu quadro inacabado,
pincel tremendo nas mãos de um artista cansado,
a cor certa sempre fugindo da paleta,
o amor sempre quase, nunca inteiro.
Na tua voz, ouvi o rumor das promessas quebradas,
como cristais caindo no chão de um museu esquecido.
E ainda assim que ironia bela!
és o verso que dói e me salva,
a ferida que escreve e não sangra.
Se um dia me perguntarem quem foste,
direi apenas:
um poema que o tempo censurou,
uma canção que o vento rasgou,
um quadro que Deus começou
e o destino não deixou terminar.
Porque há amores que não morrem apenas viram arte,
pendurados na parede da memória,
onde os poetas fracassados, os pintores tristes,
e os sonhadores teimosos
ainda te procuram em cada palavra que escrevem.

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