Poema Africano: Barriga que não escolhi
Como seria se eu crescesse numa barriga rica,
numa barriga onde só entra coisa,
onde o estômago não fica vazio.
Numa barriga onde só existe felicidade.
Onde eu conheço a voz do pai antes de ver a luz.
Conversas do tipo: “É pai, pai… diz olá pro papai.”
Onde cada pontapé é sinal de festa,
alegria em excesso.
Onde eu tenho meu próprio quarto
antes mesmo de sentar, ouvir ou abrir os olhos.
Onde a fome é só mais uma conversa
na televisão, no jornal.
Onde cada aniversário é festa,
não apenas mais um “feliz aniversário”.
Como seria?
Acordar e ter tudo o que eu quero.
Um futuro já garantido,
meu nome coberto de flores.
Não importa o caminho que eu siga,
a volta está sempre garantida.
E quando eu começasse a abrir os olhos
e visse o branco da casa
antes de ver o branco ou o preto dos meus pais…
Qual seria a reação
ao soltar a primeira palavra
saindo dessa barriga?
Acredito que seria incrível.
Dar os primeiros passos
em cima de uma tijoleira.
Seria outra coisa.
Outra vida.
Mas como não escolhemos
em que barriga ficar,
fui cair dentro de uma barriga humilde,
com pouco dentro dela.
Nasci sem dizer palavra nenhuma.
Quando comecei a abrir os olhos,
foi no escuro do quarto do meu pai.
Meus primeiros passos foram
na terra dura de Moçambique,
chão que carrega histórias
de muitos que passaram antes.
Caí, ralei o joelho, sangrei.
Deixei meu rasto
em cada esquina por onde passei,
como um cão que marca as árvores do caminho.
Tive uma infância de milhões.
Subi em árvores, caí.
Corri muito,
como quem segue o futuro
sem conhecer a direção certa.
Fui desenhando meu nome
com um ferro quente
no coração das pessoas.
Com conselhos simples:
“Kula wananga Utashuvona”
— isso soava como música
nos meus ouvidos.
Mesmo nascendo
com um nome coberto de espinhos,
tive o trabalho
de retirar todos eles sozinho.
E seguir em frente,
como se nada tivesse acontecido.
Poema de: chimanguej0
A composição poética intitulada "Barriga que não escolhi" estabelece, desde o seu enunciado, um embate profundo entre a subjetividade do indivíduo e as imposições da realidade biológica ou circunstancial.
Ao explorar o descompasso entre a vontade e o fato consumado, a obra mergulha em uma das questões mais complexas da existência humana: a aceitação daquilo que nos habita sem ter sido convidado.
O texto desenvolve-se através de uma métrica que ecoa o peso dessa descoberta, transformando o corpo físico em um território de memórias não planejadas e de identidades em conflito.
Nesse contexto, a "barriga" deixa de ser meramente uma parte da anatomia para converter-se em um símbolo de alteridade. Ela representa o outro que reside em nós, seja sob a forma de uma gestação inesperada, de uma herança genética indesejada ou das marcas indeléveis que o tempo e o trauma imprimem na pele.
A narrativa poética não busca o conforto fácil da aceitação imediata; pelo contrário, ela confronta a estranheza de olhar-se no espelho e não reconhecer a própria forma. Essa desconexão é o motor central da lírica, provocando no leitor uma reflexão sobre os limites da autonomia pessoal diante das surpresas do destino.
A formalidade da linguagem empregada serve como um contraponto necessário à crueza do tema, elevando a discussão do plano puramente estético para o filosófico.
O poema sugere que, embora não possamos escolher todas as transformações que o corpo atravessa, somos forçados a escolher como iremos narrá-las.
A "barriga que não escolhi" torna-se, então, um ponto de partida para a ressignificação do próprio eu.
Através dos versos, o que era inicialmente percebido como uma invasão ou um erro de percurso é gradualmente integrado à história do sujeito, revelando que a beleza e a verdade muitas vezes residem justamente no que nos escapa ao controle.
Ao concluir seu arco de desenvolvimento, o poema oferece uma visão sobre a resiliência humana diante do imponderável.
Ele demonstra que o reconhecimento da falta de escolha é, paradoxalmente, o primeiro passo para uma nova forma de liberdade: a liberdade de acolher a própria história com todas as suas marcas e silêncios. "Barriga que não escolhi" não é apenas um lamento sobre a perda de controle, mas um hino à capacidade de coexistir com o inesperado, transformando a estranheza física em substância poética e autoconhecimento.

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