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AFINAL, QUANTOS ANOS DUROU A ESCRAVIDÃO EM ÁFRICA 400 ou 500?

A escravatura africana é um dos capítulos mais trágicos e complexos da história mundial, mas frequentemente reduzimos essa história apenas ao tráfico transatlântico de escravos. Embora este seja um dos mais conhecidos  e certamente um dos mais devastadores  ele representa apenas uma parte de um quadro histórico mais amplo. Para compreender verdadeiramente por quanto tempo o continente africano viveu sob o jugo da escravidão e do tráfico de seres humanos, é preciso considerar dois grandes períodos interligados.


O TRÁFICO TRANSARIANO E ORIENTAL (ÁRABE -MUÇULMANO)

Muito antes das primeiras caravelas europeias aportarem na costa ocidental, já existia um fluxo contínuo de escravizados em direção ao Norte de África e ao Médio Oriente. Este sistema, frequentemente subestimado nos manuais de história, iniciou-se por volta do século VII (com a expansão islâmica) e perdurou até ao início do século XX que durou aproximadamente 1.300 anos. Estima-se que este tráfico tenha movimentado entre 14 a 17 milhões de pessoas através do Saara e do Oceano Índico.

O antropólogo franco-senegalês Tidiane N’Diaye, em obras como O Genocídio Ocultado, argumenta que a escravização árabe-muçulmana foi continuada e devastadora, durando cerca de 13 séculos contínuos  muito antes e depois do início do tráfico transatlântico com milhões de africanos deportados e muitos desaparecendo sob condições brutais.

O TRÁFICO TRANSATLÂNTICO (EUROPEU)

Este é o período mais amplamente documentado da história da escravatura africana, marcado pela industrialização do sistema escravista e pela consolidação de um racismo sistémico que passou a servir de base económica, social e ideológica tanto nas Américas quanto na Europa. O tráfico transatlântico de escravos teve início no século XV e estendeu-se até o final do século XIX, abrangendo cerca de quatro séculos de duração.

Estima-se que aproximadamente 12,5 milhões de africanos tenham sido embarcados à força para o Novo Mundo, provocando alterações profundas e duradouras na demografia, na estrutura social e na organização política de inúmeras sociedades africanas.

Embora tenha ocorrido durante um período mais curto do que o tráfico árabe-muçulmano, o impacto do tráfico transatlântico foi particularmente intenso e profundamente destrutivo, com efeitos que permanecem visíveis até os dias de hoje. Isso se deve, em grande parte, ao facto de este sistema ter incorporado mecanismos inéditos de desumanização da população negra, baseados na cor da pele.

Foi nesse contexto que surgiram e se consolidaram teorias pseudocientíficas e ideologias raciais, criadas para justificar a inferiorização dos povos africanos e legitimar a escravidão, o colonialismo e a exclusão social.

Essas construções ideológicas deixaram marcas profundas, não apenas nas sociedades africanas, mas também na formação das estruturas sociais e culturais do mundo moderno.

AFINAL, QUANTOS ANOS DUROU A ESCRAVIDÃO EM ÁFRICA 

Se somarmos a continuidade desses processos, a resposta é desconcertante: a África foi submetida a sistemas de extração humana sistemática por mais de 1.300 anos.

Enquanto o tráfico europeu durou cerca de quatro séculos, a vertente árabe-muçulmana estendeu-se por treze. 

Portanto, a visão de que a escravidão durou "apenas" 400 anos é uma simplificação que ignora quase um milénio de história anterior e paralela.


Referências Bibliográficas

N'Diaye, Tidiane. Le Génocide voilé (O Genocídio Velado). Gallimard, 2008. disponível em PDF e grátis em português.

Austen, Ralph A. Trans-Saharan Africa in World History. Oxford University Press, 2010.

Inikori, Joseph E. Forced Migration: The Impact of the Export Slave Trade on African Societies. Hutchinson, 1982.

Lovejoy, Paul E. Transformations in Slavery: A History of Slavery in Africa. Cambridge University Press, 2012.

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